Esta história
não é nem um drama nem um sucesso, é apenas
uma história de conquista de conhecimentos e de uma busca
incansável de compreensão, que se iniciou nas simples
observações de uma mãe quando sua filha era
ainda um bebê e que continua até hoje, quase 9 anos
depois .
Em 1992, casados
há 3 anos, plenamente realizados, felizes e ansiosos pela
chegada de nosso primeiro filho, demos à luz uma linda
menina, que veio coroar aquele que até então seria
o melhor e maior momento de nossas vidas e de nossas famílias
Seu desenvolvimento
inicial foi um pouco difícil, pois, apesar de muita insistência
para amamentá-la (afinal sou fonoaudióloga e sabia
o quanto aquele momento era fundamental para nós duas!)
e dela em sugar com vigor, meu leite era pouco. As mamadas foram
completadas desde o início, porque ela não ganhava
peso nem dormia, acordando a cada meia hora para mamar. Essa angústia
inicial foi logo superada e, com um mês, já tínhamos
um ritmo muito bom de alimentação e ela se desenvolvia
plenamente. Porém, dormia pouco para um recém-nascido;
seu sono era leve, acordava várias vezes, tinha muitas
cólicas, o que parecia justificar o sono inquieto - pelo
menos para o pediatra, que sempre dizia ser normal bebês
dormirem pouco.
O tempo foi
passando, seu desenvolvimento motor e global ocorria de forma
tranqüila Notava apenas que dormia induzida; mesmo após
inúmeras tentativas de fazê-la dormir sozinha, adormecia
só no carrinho ou mesmo no meio de barulho.
Aos 7/8 meses,
começou a acordar durante a madrugada, sempre bastante
assustada, chorando e, mesmo quando aninhada e acolhida por mim
ou por seu pai, parecia não nos ver ou ouvir. Essa situação
se repetiu por várias vezes até mais de 1 ano, assim
como seu sono, que se mantinha inconsistente, leve, como se não
descansasse .
Aos 14 meses
já andava, o desenvolvimento motor era pleno; aos 18 meses
já subia e descia de tudo, demostrando grande independência
e nenhum receio em cair. Com um ano e dez meses falava tudo com
grande clareza; falava bastante, cantava e brincava muito bem
com outras crianças. O sono, porém, continuava igual.
Iniciei um
tratamento com florais de Bach e obtivemos um bom resultado por
alguns meses. Sua dificuldade, agora, era lidar com a agressividade
das outras crianças. No parquinho, jamais arrancava brinquedos
dos outros e quando arrancavam dela, limitava-se a observar, chorar
ou reclamar, mas sem tomar uma atitude ativa, mesmo com minha
insistência e auxílio para lidar com essas situações
.
Aos 2 anos
entrou na escola e sua adaptação foi normal. Aos
2 anos e meio, começou a demostrar medo por bichos, que
até então nunca havia tido; de bichos passou para
bonecos, máscaras, fantasias, machucados ... enfim, variando
apenas o elemento fóbico e demostrando grande ansiedade.
Meu marido e eu, então, procuramos orientação
psicológica, pois mesmo tendo conhecimento sobre desenvolvimento
infantil, nada parecia dar certo ao tentarmos ajudá-la.
Aos 4 anos, optamos por uma psicoterapia infantil, pois o quadro
fóbico se acentuou. Fez terapia por 3 anos e meio, e o
sintoma fóbico desapareceu .
Hoje, acredito
que o quadro fóbico era apenas a manifestação
de uma grande ansiedade e que, ao trabalhar os sintomas, a ansiedade
mudou de foco e passou a se manifestar de outras maneiras. Nesse
período, nunca apresentou qualquer dificuldade pedagógica
ou de sociabilização. Observávamos, apenas,
momentos de insegurança, que vêm sendo trabalhados
de várias maneiras, até através de esportes
- faz regularmente, todas as semanas, desde os 5 anos.
Percebemos
que a organização, a rotina e os limites claros
e precisos que tanto a escola como nós dávamos eram
fundamentais para seu bem estar. Mesmo tentando discuti-los, transgredi-los
e tendo dificuldades para acatá-los, ela se sentia bem
e segura quando percebia que dávamos conta de sua insistência
e teimosia, sem voltar atrás nas determinações
e que, independentemente da situação e da maneira
como atuasse, podíamos contê-la (isso observamos
até hoje!). Desconfiamos, então, que talvez houvesse
uma dificuldade em compreender o porquê de padrões,
regras e limites - que todas as crianças questionam - mas
que acabam aceitando.
Esse processo
de aprendizado social parecia ser muito difícil, tínhamos
a sensação que só acatava aquilo que fazia
sentido para ela, que tinha algum significado para sua maneira
de ver as coisas. Porém, como é necessário
saber conviver no mundo em que vivemos, estávamos determinados
a fazê-la entender e obedecer, mesmo chegando a situações
de extremo desgaste emocional. Acreditávamos que ela evoluía
no processo, além de perceber que ficava mais tranqüila
e segura com nossa atitude.
Esse comportamento
sempre foi passado como uma característica de personalidade
psicóloga, ou seja, "ela é teimosa e até
mesmo dominadora em algumas situações. Ela é
assim e ponto !!!!" Isso nunca nos soou bem....Percebíamos
que mudava, mas, para mim, o quebra cabeça não se
encaixava ...não conseguia ver (e juro que eu queria!)
aonde havíamos errado tanto. Não concordava que
todas as suas atitudes eram voluntariosas, como nos era levado
a crer. Até porque sempre nos chamou a atenção,
desde pequena, sua afetividade, sensibilidade, bondade e percepção.
Sentíamos
o quanto se angustiava em fazer coisas sem entender, como os tiques
que sempre teve, como perder e não cuidar das coisas que
gostava, as dificuldades em iniciar e concluir brincadeiras, em
se manter envolvida por um tempo maior com as coisas que fazia
e a constante "ebulição" interna . Essas
características se mantiveram, mesmo após a alta
da terapia .
Sua ansiedade,
dificuldade em esperar pela vez, o tempo de atenção
curto, a facilidade em se dispersar e a conversa excessiva só
apareceram com clareza no final da primeira série, quando
as exigências pedagógicas aumentaram .
No início
de 2000, procuramos um neurologista e relatamos o que vivemos,
sentimos, avaliamos e percebemos durante todos esses anos. Ele
disse que eu já chegava com o diagnóstico de TDAH
pronto e, por mais difícil que isso fosse para nós,
eu já sabia o que ela tinha. Finalmente, nossas visões
cegas, nossas percepções sofridas e as angústias
de nossa filha tinham um nome e o peso de não saber o que
era isso terminava aqui .
Tentamos 6
meses de medicação para estimulação
cerebral (que não trouxe nenhum resultado) e mudamos radicalmente
a conduta familiar, tentando entender cada situação
e como devemos atuar no momento. Essa atuação é
bastante conversada entre nós, ela e todos os que convivem
com ela. Cada passo que dá sozinha frente às dificuldades
mostramos que é uma conquista, e também não
cansamos de valorizar aquilo que ela já tem de melhor .
Por opção
nossa, paramos de medicá-la. Reiniciou a terapia psicológica
com outra profissional, para poder se desenvolver melhor emocionalmente,
aprendendo a lidar com as questões que envolvem o TDAH,
e faz terapia fonoaudiológica, o que tem ajudado nas questões
pedagógicas. Hoje, tira suas dúvidas escolares conosco
diariamente - meu marido e eu vemos suas lições
e trabalhamos com ela a fixação dos conteúdos
aprendidos, tentando desenvolver independência e organização
em seus deveres, pois responsabilidade ela sempre teve, mesmo
em meio a tanta dificuldade .
Esse é
um processo lento, longo, cansativo e difícil. Às
vezes, há grande resistência da parte dela, às
vezes, há a nossa falta de tempo, já que ambos trabalhamos
o dia todo. No entanto, é prazeiroso para todos nós,
pois sentimos sua evolução e a satisfação
que tem em dar conta das coisas que antes pareciam tão
complicadas e confusas. Tudo isso nos aproximou ainda mais pois,
o que antes nos parecia "voluntariedade", hoje é
o que nos faz ler, buscar e compreender cada vez mais a respeito
do TDAH. Quanto ao sono e aos tiques, voltamos a tratar com Florais
de Bach associados à medicina chinesa e temos observado
pequenas e valiosas evoluções, como uma noite inteira
bem dormida.
Quanto a nós,
pais, crescemos infinitamente com nossos momentos de angústia,
dúvida, cansaço, medo...Sabemos que o processo é
contínuo, freqüente, mas certamente estamos aprendendo
muito com essa maneira tão diferente de viver, ver e vencer
a vida e, talvez, quem sabe seja essa a função de
nossa doce e linda menina - nos ensinar algo.
Uma coisa
é certa, ela já deu para seu irmão de 5 anos
um presente: pais mais sensíveis, tolerantes, perceptivos
e atentos e, quanto a isso, nossa família só tem
a agradecer.
Cinthia
Wilmers de Sá - 35 anos
São Paulo
Prezada Cinthia,
Seu relato revela o caminho tortuoso que muitos pais e crianças
com TDAH enfrentam antes de chegar a um diagnóstico. As questões
que freqüentemente acompanham esses pais são do tipo:
"Onde errei? O que estou fazendo para deixar meu filho assim?"
A angústia e a culpa são suas fiéis companheiras,
e esses sentimentos só diminuem quando se chega a uma compreensão
do que está acontecendo de "errado" com os filhos
e com eles próprios. Neste momento, surge um novo olhar para
o filho e para as situações, como aconteceu com vocês.
Quando a luz se faz,tudo fica mais claro e, portanto, menos angustiante,
embora não menos difícil.
Você
mostra a grande dificuldade de encontrar um profissional atualizado
em desenvolvimento infantil e TADH. Isto pode adiar, ainda mais,
o esclarecimento do caso, pois acaba não fornecendo os subsídios
necessários para uma melhora significativa. As explicações
mais comumente relatadas são: "Vocês pais são
muito exigentes. Criança é assim mesmo! É apenas
uma fase, quando crescer isso passa. A criança quer chamar
a atenção, está carente! Falta limite, vocês
pais são muito condescendentes..." e por aí vai.
Não que essas explicações não tenham
procedência, mas sabemos que não é só
isso que ocorre. Essa forma de entender é simplista, e em
nada contribue para melhorar uma situação. Os pais
necessitam de explicações claras e consistentes, não
de explicações que refletem pequena intuição
acerca do TDAH e suas conseqüências.
Outro ponto
importante, Cinthia, é que alguns dos sintomas apresentados
por sua filha durante o desenvolvimento não são apenas
em função do TDAH, porque mesmo crianças sem
TDAH apresentam insegurança, fobia, ansiedade, etc. É
importante não atribuir tudo ao TDAH. O que pode acontecer
é uma co-ocorrência de outros quadros, por exemplo,
Transtorno de Ansiedade + TDAH. Temos que ficar atentos e diferenciar
as coisas.
A questão
da medicação é um fator que assombra os pais
e é ponto de conflito, devido ao receio de possíveis
efeitos colaterais: causa dependência? interfere no crescimento?
Os pais devem esclarecer essas dúvidas com o médico,
que informará sobre benefícios e desvantagens. A vontade
dos pais, bem sei, é que seus filhos possam tomar algo mais
natural e menos químico. Entretanto, as pesquisas mostram
que, dependendo da intensidade dos sintomas e do prejuízo
causado é, de fato, necessário o uso de medicação
mais potente como, por exemplo, a Ritalina.
Você
deixa claro também o desgaste emocional enfrentado pelos
pais quando têm um filho com TDAH. Muitos pais sentem que
sua energia foi "sugada" e que não há tempo
suficiente para reposição. Istoé resultado
do constante monitoramento, limites, direção e referências
que a criança com TDAH tanto necessita.
Sabemos todos
que a função dos pais é muito importante para
qualquer criança, mais ainda para a criança com TDAH.
Esta necessita de pais disponíveis "o tempo todo",
para apoio, atenção e compreensão. Cinthia,
você fala que, quando todo o esforço dispensado parecia
perdido, vocês retomaram de novo e não desistiram.
Essa é, realmente, uma das sensações que a
criança com TDAH provoca: vontade de desitir de tudo! Mas
vocês mostraram saber que, apesar das dificuldades sua filha
dependia de doses cavalares de empenho e investimento emocional.
Por outro lado, como você também percebeu, há
um aspecto da criança com TDAH que é muito positivo
e necessário à vida: ela é criativa, espontânea,
tem saída rápida para situações difíceis
e um potencial enorme para o mundo das idéias, pois sua vida
mental é riquíssima. Devemos lembrar da citação
de Morris, 1984: "Cada criança é como todas as
crianças, como algumas crianças, e como nenhuma outra
criança".
Parabéns
pelo dedicação demonstrada.
Um abraço
Edyleine Bellini Peroni Benczik
Psicóloga Clínica